Projeto Tereza Vale a Pena transforma resíduos em trabalho e novas oportunidades para mulheres egressas do sistema prisional
Negócio social emprega 13 mulheres egressas, alia produção de brindes corporativos à produção artesanal e encontra na EXPOSIBRAM 2026 uma nova frente para ampliar divulgação e geração de renda
Uma sacola distribuída durante a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (EXPOSIBRAM 2026) carrega consigo uma história que ultrapassa sua própria finalidade. O material utilizado em sua confecção tem origem no carpete da edição de 2025 da feira, que, em vez de ser destinado ao descarte, foi encaminhado a uma oficina de costura em São Paulo. No local, o material ganhou novo significado e utilidade pelas mãos de mulheres egressas do sistema prisional, em uma iniciativa que associa reaproveitamento, geração de renda e reinserção social.
Para além dos debates sobre tecnologia, sustentabilidade, competitividade e os desafios que se apresentam ao setor, a programação da EXPOSIBRAM 2026 também evidencia iniciativas capazes de articular atividade econômica, reaproveitamento de materiais e transformação social.
É nesse cenário que se destaca o Tereza Vale a Pena, negócio social que atualmente emprega 13 mulheres que tiveram passagem pelo sistema prisional. A iniciativa é conduzida pela diretora executiva Flávia Maria da Silva, que também vivenciou a experiência do cárcere e, a partir da própria trajetória, atua na construção de novas possibilidades para outras mulheres. O projeto tem como propósito promover oportunidades de trabalho e geração de renda como instrumentos de autonomia, reconstrução profissional e reinserção social.
O próprio nome da iniciativa traduz parte de sua essência. Na gíria prisional, “tereza” designa uma corda improvisada com lençóis amarrados, tradicionalmente associada a tentativas de fuga. No contexto do projeto, entretanto, o termo é ressignificado e passa a representar uma outra ideia de liberdade, aquela construída por meio do trabalho, da autonomia e do empreendedorismo.
Para Flávia, contudo, o impacto da iniciativa ultrapassa a geração de renda. Após a experiência do cárcere, muitas mulheres, segundo ela, deixam de se reconhecer e também de serem reconhecidas como parte integrante da sociedade. Nesse processo, o trabalho assume uma dimensão que vai além da atividade profissional: contribuir para reconstruir vínculos, restabelecer o sentimento de pertencimento e ampliar a perspectiva sobre novos caminhos possíveis para suas trajetórias.
“A Tereza é a primeira chance na vida dessas mulheres, que antes não tiveram chance alguma”, afirma. Para a diretora executiva, a transformação mais significativa acontece quando essas mulheres recuperam a percepção de que pertencem à sociedade e passam a vislumbrar possibilidades que, antes, pareciam distantes ou inacessíveis.
Trabalho que sustenta o impacto
Localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, o Tereza Vale a Pena mantém uma oficina de costura dedicada, principalmente, à produção de brindes corporativos, atividade que constitui sua principal fonte de receita. O próprio negócio gera os recursos necessários para remunerar as profissionais e assegurar a continuidade da operação. Sacolas, ecobags e outros produtos são confeccionados de acordo com as necessidades e demandas das empresas parceiras.
A produção incorpora ainda o conceito de upcycling, prática que consiste em reaproveitar materiais que seriam descartados, atribuindo-lhes uma nova função e agregando valor ao produto final. Foi esse o destino dado ao carpete utilizado na EXPOSIBRAM 2025. Como projeto-piloto, cerca de dez peças foram inicialmente confeccionadas e, posteriormente, distribuídas durante a edição de 2026 da feira.
A parceria deverá ganhar novos contornos após o encerramento da EXPOSIBRAM 2026. De acordo com Flávia, a previsão é que materiais utilizados na feira deste ano sejam encaminhados ao projeto para, posteriormente, retornar sob a forma de novos produtos. Entre as iniciativas previstas está uma produção especial alusiva aos 50 anos do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).
Nesse processo, a dimensão social da iniciativa também acompanha cada peça produzida. Os produtos recebem uma etiqueta com informações sobre a trajetória da mulher responsável por sua confecção, estabelecendo uma aproximação entre quem recebe o objeto e histórias de vida que, não raro, permanecem ocultas ou são reduzidas ao estigma associado à passagem pelo sistema prisional.
A iniciativa articula, portanto, duas perspectivas de reaproveitamento. De um lado, materiais empregados em uma grande feira encontram um novo ciclo de utilização, reduzindo o descarte e prolongando sua vida útil. De outro, mulheres que enfrentam o preconceito e as dificuldades de reinserção no mercado de trabalho encontram uma oportunidade concreta de geração de renda, desenvolvimento profissional e reconstrução de suas trajetórias.
Para Flávia Maria da Silva, que hoje conduz o negócio social ao lado das outras 12 mulheres que integram a equipe, essa inclusão ultrapassa a dimensão individual e assume um sentido coletivo. Ao sintetizar o propósito que orienta o projeto Tereza Vale a Pena, ela recorre a uma frase que também traduz sua própria experiência: “Quando a sociedade civil inclui, o crime perde.”
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