Mineração preditiva e recuperação ambiental ganham força com o avanço da inteligência artificial

Da prevenção de falhas ao monitoramento ambiental, aplicações apresentadas na EXPOSIBRAM 2026 mostram como a IA começa a ocupar espaço em diferentes etapas da operação mineral.

A Inteligência Artificial na mineração avança com rapidez. Na Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (EXPOSIBRAM 2026), realizada de 24 a 27 de agosto, no Expominas, em Belo Horizonte, o tema atravessa tanto a área de exposição quanto a programação do congresso, com discussões e soluções voltadas à segurança, manutenção preditiva, produção, gestão de recursos hídricos e monitoramento ambiental.

Na feira, diferentes fornecedores apresentam tecnologias baseadas em análise de dados, sensores e automação. No congresso, que integra a programação do evento, a discussão avança para os impactos dessas ferramentas sobre decisões operacionais e ambientais, reforçando um movimento de integração da IA a diferentes etapas da atividade mineral.

É nesse contexto que a Hexagon Mining apresenta modelos de aplicações que já começam a fazer parte da rotina operacional da empresa. Segundo o presidente para a América Latina da divisão de Mineração da companhia, Rodrigo Couto, a inteligência artificial ganha efetividade quando os dados captados por sensores são transformados em informações capazes de apoiar decisões e identificar comportamentos fora dos padrões esperados.

Na área de segurança, por exemplo, sistemas podem combinar informações relacionadas a anticolisão, monitoramento de fadiga, controle de frota e comportamento operacional. A partir do cruzamento desses dados, a tecnologia consegue identificar desvios e apoiar o acompanhamento das condições de trabalho dos operadores.

A aplicação também chega à perfuração. Couto explica que sistemas instalados nas perfuradoras conseguem analisar, em tempo real, parâmetros como taxa de perfuração, rotação e pressão, levando em consideração as características da rocha. A partir dessas informações, os parâmetros da atividade podem ser padronizados automaticamente, reduzindo diferenças de desempenho entre operadores e buscando maior eficiência no processo.

Conectividade sustenta aplicações em tempo real

A expansão dessas aplicações, porém, depende também da infraestrutura capaz de fazer os dados circularem com velocidade e estabilidade. O gerente de Produto da Huawei, Clevio Watanuki, explica que redes privadas, 5G, computação na borda (Edge Computing) e estruturas de nuvem cumprem justamente esse papel ao conectar os dispositivos instalados na operação aos sistemas responsáveis pelo processamento e pela tomada de decisão. 

Quanto maior o número de sensores e equipamentos conectados, maior a necessidade de largura de banda e menor latência para que as informações possam ser utilizadas em tempo real. Em operações minerais extensas ou remotas, essa exigência se torna ainda mais relevante. Segundo Watanuki, a infraestrutura precisa oferecer um tempo de resposta previsível mesmo com milhares de sensores conectados.

 Dependendo da distância entre a mina e uma nuvem pública, a alternativa pode ser aproximar o processamento da operação por meio de uma nuvem privada na borda. “O que fazemos com esses dados? Como eles vão chegar ao centro de decisões?”, resume o executivo ao explicar que a conectividade funciona como o alicerce para o uso das informações produzidas na mina.

Da correção à antecipação

Outro avanço está na manutenção preditiva. Em vez de atuar apenas depois que uma falha compromete a operação, sistemas associados à inteligência artificial podem utilizar dados continuamente coletados para identificar sinais de desgaste e antecipar possíveis problemas.

No primeiro caso, radares conseguem monitorar o nível de material mesmo em condições de poeira, chuva ou neblina, filtrando interferências ambientais que poderiam afetar a medição. Já nas correias, sensores acompanham fatores como espessura, desgaste e desalinhamento, permitindo identificar situações que podem evoluir para rupturas ou paradas do equipamento.

A possibilidade de antecipar falhas ganha relevância em uma atividade caracterizada por equipamentos de alto valor e produção contínua. Nesse cenário, a IA passa a ocupar espaço não apenas como ferramenta de automação, mas como suporte à previsibilidade, antecipação de acidentes e tomada de decisão operacional.

IA também chega à gestão integrada da mina

A mesma lógica de transformar dados em decisões começa a avançar sobre a gestão cotidiana das operações. Na EXPOSIBRAM 2026, a EasyMine apresentou uma plataforma de gestão de frota e despacho estruturada a partir de agentes de inteligência artificial. 

O diretor executivo da empresa, Geraldo Dutra Neto, detalha que diferentes agentes especializados atuam em áreas como planejamento de mina, despacho, controle, suporte, infraestrutura, telemetria e combustível, compartilhando informações para entregar ao operador uma visão consolidada da operação.

Na prática, a proposta é reduzir etapas manuais na geração de relatórios, acompanhamento de indicadores e comunicação entre áreas. Dutra cita exemplos internos do desenvolvimento da ferramenta em que tarefas que antes exigiam cerca de 20 horas de trabalho passaram a ser concluídas em aproximadamente 20 minutos, enquanto relatórios e painéis que levavam até uma semana para consolidação passaram, segundo ele, a ser obtidos em poucos minutos. 

Dados também chegam à gestão ambiental

As aplicações apresentadas durante a EXPOSIBRAM 2026 mostram ainda que o uso de inteligência artificial ultrapassa os limites da produção. Entre as soluções apresentadas também pela Hexagon está o chamado Green Cube, que utiliza sensores ópticos instalados em aeronaves, drones ou equipamentos utilizados em campo para coletar e digitalizar informações sobre a biodiversidade de determinada área.

A tecnologia permite acompanhar alterações ocorridas no território ao longo do tempo e observar sua evolução durante processos de recuperação ambiental. A proposta é transformar aspectos da biodiversidade em informações mensuráveis, criando referências que auxiliem o acompanhamento das condições da área antes, durante e depois da atividade mineral.

Essa diversidade de aplicações acompanha o espaço que a inteligência artificial ocupa também nos debates do congresso. Ao longo da programação da EXPOSIBRAM 2026, o tema aparece relacionado à gestão hídrica, segurança, planejamento, produção e monitoramento ambiental, indicando que a tecnologia deixa de ficar restrita às áreas de TI para ser discutida como parte da própria estratégia operacional da mineração.

Por trás da capacidade de prever comportamentos, desgastes ou alterações ambientais, porém, existe um elemento essencial: a informação coletada pela IA. “Não existe uma inteligência sem ter o dado”, resume Couto. Para o presidente da Hexagon, a qualidade dos resultados depende não apenas dos algoritmos utilizados, mas da capacidade de coletar informações confiáveis e associá-las corretamente ao contexto da operação.

O executivo também destaca a capacidade técnica encontrada no Brasil. A partir de sua experiência com equipes de desenvolvimento nos Estados Unidos, afirma observar entre profissionais brasileiros, especialmente em Belo Horizonte, um nível de conhecimento comparável ao de pólos internacionais de tecnologia. Na avaliação dele, a familiaridade desses profissionais com a mineração também favorece a aplicação mais rápida das ferramentas aos desafios específicos do setor.

Além das aplicações apresentadas por empresas de tecnologia, o ecossistema de inovação também aparece como parte importante desse avanço. Presente também na feira, o Mining Hub atua na conexão entre mineradoras, startups e fornecedores de soluções, criando ambiente para testar, validar e escalar novas tecnologias no setor. Nesse contexto, a inteligência artificial passa a ser discutida não apenas como ferramenta isolada, mas como parte de um processo mais amplo de transformação digital, no qual diferentes atores precisam compartilhar desafios operacionais, dados e conhecimento para que as soluções ganhem escala e aderência à realidade das minas. 

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